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História, pasta e… carros!

Por Marcello Oliveira

Com quatro carimbos da Itália em meu passaporte, percebi que cada viagem para este país é uma experiência completamente diferente e a coisa vai só melhorando, pois você aproveita aquilo que mais gostou nas viagens anteriores e acrescenta novos itens à sua lista. O que eu quero dizer é que existe uma Itália para cada perfil: para os românticos, os jovens aventureiros, os amantes de uma boa gastronomia, os entusiastas da moda e da arquitetura, para os fãs de história, para os ligados em música e, claro, para os apaixonados por carros, como eu. E todos eles se misturam numa única visita ao país se assim for o seu gosto. 

Então quando alguém me pergunta sobre a Itália, eu falo com segurança: “esse é um lugar para fazer diferentes viagens em uma  única visita”. 

A experiência que conto agora, tive na minha segunda viagem à Itália, em 2011, e se repetiu nas duas idas seguintes ao país, em 2018 e 2019. 

Depois de conhecer o “basicão” da Itália na minha primeira viagem para lá, fui pesquisar algo diferente para fazer na minha segunda vez. Eis que me deparo com a Disneylândia de quem curte carros (e um bom passeio até para quem não liga para o assunto.) 

Com sedes de grandes marcas de carros esportivos, a região da Emília Romagna atrai os apaixonados pelos possantes. A cidade de Modena é cercada por cinco importantes fabricantes: Ferrari, Lamborghini, Ducati, Maserati e Pagani. As duas primeiras construíram, anexos às linhas de montagem, modernos prédios que abrigam museus, lojas, restaurantes e cafés temáticos. Em Sant’Agata, uma pequena cidade com menos de seis mil habitantes, é possível acompanhar de perto a montagem quase artesanal de um Aventador, por exemplo, dentro da fábrica da Lamborghini. A visita à linha de montagem reabriu em junho e custa 50 euros, mas se você ficar com água na boca, pode mostrar seus dotes de pilotos por alguns minutos, alugando um modelo da marca na saída do museu. 

Do outro lado de Modena, no distrito de Maranello, bandeiras vermelhas e quadriculadas tremulam anunciando a chegada na sede oficial da Ferrari. É o local preferido para quem curte carros e já entrego uma dica: se você quer visitar apenas a Ferrari, é possível fazer isso em apenas um dia, saindo de Roma ou de Florença de trem, com baldeação em Bologna. No headquarter da Ferrari, o turista é convidado a conhecer a história da marca em um moderno museu. A visita à linha de montagem é permitida, basta que você preencha apenas um requisito: ter uma Ferrari na garagem. Se você ainda não tem a sua, passe direto na portaria e vá ao museu. É lá que estão as mais belas criações da marca italiana. O visitante pode conhecer de perto a rotina nos boxes da equipe de engenheiros, mecânicos e técnicos que acompanham a escuderia nos GP’s de Fórmula 1 ao redor do globo e posar para fotos ao lado dos carros de corrida que fizeram história nas pistas. 

São mais de 40 carros expostos em cinco salões dentro do museu, que contam a história da marca do cavallino rampante, desde a Ferrari 166 Aerlux, de 1949, até os mais recentes lançamentos. Há uma ala apenas para motores, afinal, o coração das máquinas merece um destaque especial. Outro espaço é dedicado ao fundador da marca, Enzo Ferrari. Guias falando inglês e italiano acompanham os visitantes nos ambientes. Objetos de arte inspirados na marca e livros publicados sobre a Ferrari e seu criador também fazem parte do passeio. O visitante conhece os detalhes minuciosos da produção de uma Ferrari, desde o bloco do motor até o cuidado com a manipulação do couro de primeira, que reveste os estofados dos carros. Dois simuladores fazem os visitantes experimentarem a emoção de pilotar um carro de Fórmula 1. Os troféus e títulos conquistados pela Ferrari estão expostos na galeria da vitória, próximo aos históricos uniformes usados pelos pilotos. É impossível deixar o museu sem estar com o pensamento longe, viajando pelo mundo das máquinas. 

Museu da Ferrari: atração imperdível para os amantes do automobilismo

Um ônibus com guias da Ferrari conduz os visitantes do museu à pista de Fiorano, onde as Ferrari produzidas desde 1972 são testadas, e passa por uma avenida interna que corta prédios da administração da marca e de produção dos veículos. Um laboratório permite que os visitantes conheçam, na prática, o trabalho dos profissionais da Ferrari. O espaço abriga uma estação de realidade aumentada, uma tecnologia inovadora que, através de seu sofisticado software, praticamente reconstrói qualquer objeto, como, por exemplo, um motor de Ferrari em uma tela como se fosse realmente em nossas mãos. Palestras no local sobre temas que fazem parte dos processos de produção, integram o museu. 

Na saída, não se assuste se for abordado nas ruas próximas com convites para pilotar uma Ferrari. Várias empresas alugam os possantes por períodos que variam entre 10 minutos e uma hora, mas pode durar até o dia inteiro, se você negociar bem e o seu bolso comportar. Se você se contenta apenas com um aperitivo, há locações a partir de 110 euros, com direito a pilotagem em uma estrada próxima. Se você tiver coragem e domínio da máquina, o instrutor te permite chegar aos 170 km/h em vias públicas da região ou até a 290 km/h em pista fechada. Você pisa no acelerador e escuta o ronco do motor V8 como se fosse uma sinfonia, suas costas colam no encosto do banco nos arranques e retomadas de marchas, as curvas são vencidas com precisão quase cirúrgica e o ponteiro no painel de instrumentos sobe tão rápido que fica difícil acompanhar. Nos modelos conversíveis, a sensação de prazer é reforçada pelo vento, que ganha força na medida em que o ronco do motor vai ficando ainda mais grave. O corte dos motores ocorre ainda em estado de êxtase. Todos esses fenômenos acontecendo ao mesmo tempo resultam em uma emoção indescritível. 

Não há necessidade de agendar a visita ao museu e nem para dirigir uma Ferrari em Maranello, pois os ingressos são vendidos na bilheteria no local ou online. 

Já para quem prefere os clássicos italianos, que tal viajar pela Toscana, conhecendo vinícolas e pequenos fabricantes de azeite de oliva através de estradinhas de terra em meio às fazendas da região a bordo de um Fiat Cinquecento da década de 1950? Isso também pode e te leva a cenários incríveis, parece um filme antigo, de tão bucólico que é. Mas isso é papo para outro dia. Ci vediamo!