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La Tomatina: uma guerra doce, suja e divertida

Por Raphael Ursino

Durante a minha viagem pela Espanha, organizei o planejamento para poder participar da La Tomatina: uma guerra doce, suja e divertida, tradicional evento onde os participantes fazem uma guerra de tomates.

Essa guerra, ou melhor, festa, acontece todos os anos, na última quarta-feira de agosto, em Buñol, uma pequena cidade na província de Valência, e atrai turistas do mundo inteiro para uma experiência literalmente doce. Aperte o play e confira:

Desperdício? Nada disso!

Vale ressaltar que a escolha dos tomates usados no festival é especialmente feita para esta finalidade, ou seja, somente os que estão extremamente maduros e impróprios para o consumo. Sem contar que as frutas são de uma espécie não muito saborosa.

Indo para a guerra

Por incrível que pareça, grande parte das pessoas usa roupas brancas durante o evento. Deve ser para evidenciar a cor que elas ficarão depois da guerra, né? Comigo não foi diferente, vesti uma camiseta branca, uma bermuda velha e chinelo. Sim, fui de chinelo, pois eu tinha somente um par de tênis e não queria que ele ficasse o resto da minha viagem com cheiro de tomate.

Antes mesmo do sol nascer, centenas de pessoas já aguardavam o trem para Buñol na estação de Valência. Tinha gente tomando café, outros preparando as fantasias… A animação era total.

La Tomatina: uma guerra doce, suja e divertida

Chegando na estação de trem de Buñol

Depois de cerca de 45 minutos de viagem, as ruas de Buñol foram tomadas por turistas do mundo inteiro, que desciam as ladeiras rumo ao campo de batalha, a Plaza del Pueblo. No caminho, bares, restaurantes e vendedores ambulantes ofereciam bebidas, lanches, acessórios. O item mais vendido eram as bolsas de plástico para proteger celular, carteira e demais itens que não podem molhar, e também óculos de natação. Afinal, ninguém queria ficar com os olhos ardendo depois de uma tomatada no rosto, não é mesmo? Garanti os meus e segui pra luta. 

La Tomatina: uma guerra doce, suja e divertida

Milhares de pessoas descem as ladeiras da cidade, rumo à Plaza del Pueblo

 

Vendedores ambulantes oferecem bebidas aos participantes da festa

Fazendo o reconhecimento do terreno

Aos poucos o campo de batalha ia ganhando cada vez mais adeptos. Durante a concentração, enquanto todos aguardavam os caminhões com as munições (tomates) chegarem, alguns moradores despejavam, de suas sacadas, baldes d’água sobre nossas cabeças. A ideia era, digamos, aquecer os ânimos… ou seria esfriar? (risos)

De repente, no meio da praça, me aparece um grande mastro ensaboado, com um pedaço de carne no topo. Muitos participantes mais ousados tentaram (sem sucesso) subir naquele “pau-de-sebo” para alcançar o “prêmio”.

Preparar… Apontar… Fogo… Quero dizer, tomate!

Em meio àquela multidão molhada, que cantava, gritava e dançava, cada um à sua maneira, estava eu, à espera do tão aguardado anfitrião da festa, o tomate, é claro. Eis que, às 11h, soou o primeiro disparo, anunciando o início oficial da Tomatina. Enquanto isso, o primeiro caminhão acabara de fazer a curva e adentrar à praça para despejar os tomates no chão. Pronto, começava ali a guerra mais animada, divertida, engraçada e suja (literalmente) que eu já vi na minha vida.

La Tomatina: uma guerra doce, suja e divertida

Após o primeiro disparo, começa a guerra de tomates

Em boca fechada… não entra tomate

Quando abri a boca para soltar um grito de “Aeeee”, fui logo surpreendido com um pedaço de tomate na bochecha. Algumas gotas que saltaram até a minha boca me fizeram sentir o gosto nada agradável daquele molho azedo.

Na hora, eu pensei: agora a coisa ficou séria, preciso me armar. Comecei então a olhar em volta em busca de tomates, não muito destruídos, para arremessar nos outros participantes.

Durante exatamente 1h, o que se viu foram tomates voando para todos os lados, pintando as pessoas e os muros da cidade de vermelho. Pra falar a verdade, fiquei mais preocupado em me defender do que atacar (risos).

La Tomatina: uma guerra doce, suja e divertida

Os tomates usados no festival são especialmente cultivados para esta finalidade

Ele comeu, eu vi

No meio daquela bagunça, tinha gente rolando no chão e se banhando naquela “piscina” de molho, abraçando uns aos outros, e, pasmem, eu vi um rapaz comendo um tomate já todo amassado.

No segundo disparo, todos pararam (ou, pelo menos, deveriam) de jogar tomates. Hora do banho coletivo. Os próprios caminhões, com suas enormes mangueiras, dão aquele banho na galera, enquanto voluntários e moradores começam a limpar as ruas de Buñol, completamente tomadas pela cor vermelha. No final das contas, a minha experiência no festival foi muito divertida.

La Tomatina: uma guerra doce, suja e divertida

Ao fim da festa, os moradores iniciam a limpeza das ruas

O importante é se divertir

Numa guerra convencional, os opostos estão sempre em busca da vitória. Mas na Tomatina todos estão do mesmo lado, com as mesmas armas, não há soldados melhores e nem piores. Não há vencedor nem perdedor, pois todos os combatentes têm o mesmo objetivo: se divertir.

Depois da brincadeira, os participantes começam a deixar o campo de batalha

Depois da brincadeira, os participantes começam a deixar o campo de batalha

Como tudo começou

Não se sabe ao certo a origem da Tomatina, mas dizem que tudo começou em 1945, quando um grupo de jovens resolveu encenar uma briga. Eles começaram a jogar uns nos outros a primeira coisa que viram pela frente, no caso, tomates. A polícia foi chamada e acabou com a farra, mas os jovens repetiram a cena no ano seguinte, desta vez, munidos com os próprios tomates. E nem precisa dizer que a polícia chegou, novamente, né?

Ano após ano, a brincadeira foi ganhando ainda mais adeptos, até que então, em 1980, acabou virando um evento oficial na cidade, atraindo milhares de pessoas do mundo inteiro.

Regras para participar

E para que a brincadeira ocorra da melhor forma possível, alguns cuidados devem ser observados, não é mesmo? Para participar desta tradicional festa espanhola, as regras são:

  • Na área de combate não é permitido entrar com garrafas ou quaisquer objetos que possam causar acidentes
  • Não pode rasgar camisetas e, muito menos, arremessá-las nas pessoas
  • Os tomates devem ser esmagados antes de serem atirados para evitar que machuquem alguém
  • Os participantes devem dar passagem e respeitar o fluxo dos caminhões
  • Ao segundo disparo, nenhum tomate deverá ser arremessado.

E antes de encerrar, preciso deixar registrado que consegui tirar poucas fotos, já que a minha câmera não era à prova d’água, ou de tomates. Para garantir algumas imagens, improvisei uma capa de plástico para protegê-la. O resultado não ficou lá essas coisas, mas acho que mostra um pouco do que foi a Tomatina. E aí, você encara uma aventura dessas?