Colunistas

Cruzando o deserto de Outback em um trem de luxo

Por Marcello Oliveira 

A Austrália, maior país da Oceania, é um dos que mais tiveram restrições ao longo da pandemia e a partir da semana que vem (21/02) vai reabrir suas fronteiras para turistas vacinados de todo o mundo após dois anos fechadas.

Mas quando falamos em Austrália, o que logo vem à mente são as belíssimas praias, a incrível barreira de corais, o Opera House de Sydney e os badalados eventos de Melbourne, mas este país tem muito mais a oferecer. Um lugar cheio de mistérios, com uma cultura rica e visuais de encher os olhos, assim é o deserto do Outback, também conhecido como o deserto vermelho por causa da tonalidade da terra que predomina na região, ainda praticamente inóspita. Para atravessar o deserto, embarcamos, pouco antes da pandemia, no único trem de passageiros que liga o extremo norte ao sul da Austrália, o The Ghan, que faz o trajeto em três noites.

O colunista Marcello Oliveira e o fotógrafo Vicente Schmitt (@vicente_schmitt) prestes a embarcar no The Ghan, em Darwin.

A viagem começa em Darwin, no Território do Norte, a menor das capitais australianas, com 130 mil habitantes. Aqui já temos o clima úmido típico do sudeste asiático (estamos a uma hora de voo da Indonésia e do Timor Leste) e dias com temperaturas acima dos 40 graus são comuns. Há praias, mas são impróprias para banho pela presença de águas vivas e – pasmem – crocodilos de água salgada que podem chegar aos sete metros de comprimento. O obstáculo ambiental fez a prefeitura construir uma praia artificial no centro da cidade, onde os répteis gigantes não são uma preocupação. 

Hora de embarcar no luxuoso The Ghan, que nos levará ao encontro com o mar do outro lado do país, no Sul da Austrália. São cerca de 40 vagões, um quilômetro de trem (a extensão pode sofrer modificações de acordo com a demanda. No dia de nossa viagem, a composição tinha exatos 971 metros).

O famoso trem australiano é mais que um mero meio de transporte, é uma experiência. Éramos 258 passageiros desfrutando o que há de melhor da gastronomia australiana, incluindo pratos exóticos feitos com carnes típicas apreciadas no deserto da Austrália, como a de crocodilo e de canguru, além dos melhores vinhos produzidos no país. As confortáveis cabines com banheiro privativo acomodam até duas pessoas, que têm a oportunidade de dormir observando a noite estrelada do Outback pela janela e acordar com os primeiros raios do sol nascente por entre as folhas secas da vegetação rasteira que compõem a paisagem árida.

The Ghan parado no meio do Outback. Foto: @vicente_schmitt

Bastou viajar 300 km ao sul de Darwin para entrarmos no deserto por Katherine, uma pequena cidade aborígene de 10 mil habitantes e que abriga o parque nacional de Nitmiluk.

Nitmiluk National Park: porta de entrada para o deserto do Outback pelo norte da Austrália.

Seus canyons nos faz lembrar da represa de Furnas, em Capitólio, Minas Gerais, com a diferença que as águas transparentes do Rio Katherine são refúgios para crocodilos de água doce e que, segundo os funcionários do parque, não atacam. O sol forte convida os mais corajosos a um mergulho nas piscinas naturais que se formam entre as rochas. Nos paredões, inscrições milenares de tribos aborígenes que viveram nesse lugar antes da chegada dos ingleses.

Canyons do Nitmiluk: um ponto da Austrália que lembra Capitólio, em Minas Gerais.

Continuamos a viagem pelo deserto vermelho com o impecável serviço da tripulação do The Ghan até pararmos na cidade mais central da Austrália e também a maior de todo o deserto: Alice Springs, com 25 mil habitantes. Lá descobri que os aborígenes não gostam de serem fotografados pois, segundo a crença deles, suas almas também estão nas fotografias. Mas eles são bons de negócio e vendem suas artes em ruas e praças.

A cidade fala mais de quinze idiomas e dialetos, além do inglês. É a maior concentração de aborígenes de toda a Austrália. São várias tribos diferentes vivendo na cidade e cada uma tem uma língua diferente. Historicamente, Alice Springs é um ponto muito importante para o desenvolvimento de todo o Outback e essa história cruza com os trilhos do The Ghan. O nome do nosso trem é uma homenagem aos trabalhadores afegãos que vieram trabalhar na construção dos vilarejos e da própria estrada de ferro. Eles trouxeram do Afeganistão os primeiros camelos da Austrália. Por serem animais super resistentes ao clima do deserto, foram se reproduzindo e hoje são cerca de 1 milhão de camelos na natureza.

Até 1872, Alice Springs e outras cidades do deserto eram completamente isoladas do resto do mundo. A estrada de ferro trouxe a comunicação e evolução e fez de Alice Springs uma parada obrigatória para os exploradores que cruzavam o deserto entre o norte e o sul do país. Era em Alice Springs que eles enviavam e recebiam mensagens de outras cidades a partir da Estação de Telégrafo. A linha de passageiros só foi inaugurada em 1929 e também era usada para levar suprimentos.

Jantar sob as estrelas do deserto em Alice Springs

Foi nessa mesma Estação de Telégrafo, preservada até hoje como era no século XIX, que participamos de um churrasco ao ar livre no melhor estilo do Outback, com direito ao som de grupos de música country locais, que mesclam a viola com o didgeridoo, um instrumento musical aborígene. Nosso jantar teve carne e batatas assadas na brasa, tradição do Outback e que está presente até hoje na vida dos que vivem nessa parte da Austrália. 

A cidade debaixo do deserto 

Deixamos Alice Springs e descemos cerca de 680 quilômetros pelo deserto do Outback até Manguri, a estação de trem mais próxima do nosso próximo destino: Coober Pedy. Da estação, que fica literalmente no meio do nada (o trem para no meio do deserto, não tem estação física, apenas uma pequena plataforma que serve só dois vagões, enquanto os passageiros dos demais vagões descem direto na terra), foram mais 42 km de ônibus em estrada de chão.

Estação no meio do deserto: parada para conhecer a cidade subterrânea de Coober Pedy.

Coober Pedy está no meio do deserto, mas já no estado da Austrália do Sul e vive da mineração que busca o Opal (opala), a pedra preciosa do deserto. Esse mineral faz com que as pessoas aqui literalmente se escondam, morando em buracos e isso não é maneira de falar não. São 1.750 moradores na cidade e 75% deles moram em casas subterrâneas. São moradias formadas em buracos cavados abaixo do nível da rua que podem tanto já nascerem como residências ou até mesmo minas desativadas que se transformaram em casas.

Superfície da cidade de Coober Pedy é repleta de buracos e chaminés dos imóveis subterrâneos.

Há uma explicação lógica para isso. Como no verão a temperatura chega fácil aos 50 graus durante o dia e no inverno pode ficar até negativa durante a madrugada, as casas nos buracos sempre estarão com temperatura constante entre 21 e 24 graus. Não importa se “lá em cima” o sol está queimando tudo ou se a noite está congelante, nas casas subterrâneas a temperatura estará sempre agradável.

E não são apenas casas que ficam abaixo no nível da rua. Há também igrejas, restaurantes, hotéis, lojas e ruas de pedestres escondidos do sol. Almoçamos num restaurante “cavado” uma semana antes da nossa visita. A poeira ainda estava solta no chão e nas paredes, mas era um lugar bem limpo e agradável. O imóvel que abriga o restaurante fica numa localização privilegiada: num buraco com ligações com diversas ruas subterrâneas e até um caminho direto para o aeroporto de Coober Pedy, tudo por baixo, um labirinto que parece um formigueiro. E o medo de se perder? Mas isso é algo que pode acontecer, assim como pessoas que caem em buracos ao caminharem pela superfície. Por isso, há várias placas de sinalização alertando para a presença de buracos aleatórios na superfície.

O pequeno aeroporto da cidade atende apenas aviões de menor porte e abriga o serviço aeromédico Royal Doctor Flying Service, pois sem hospitais de grande porte, os pacientes precisam se consultar e fazer exames em cidades que ficam a mais de 600 km de distância. Há apenas uma escola de educação básica e que fica na única rua asfaltada da cidade. Os alunos que não estudam lá, precisam estudar a distância, por correspondência com professores que ficam em Alice Springs (720 km) ou Darwin (2.500 km).

Celular e internet mal funcionam na cidade, mesmo com uma antena, mas que atende apenas uma única operadora. Isolada, Coober Pedy não está conectada com a rede elétrica da Austrália e toda a energia utilizada vem de geradores movidos a óleo diesel e uma pequena parte de geradores eólicos. Se o combustível acabar, a cidade para.

Os hotéis e hostels da região se valem da necessidade de acomodações subterrâneas para atrair turistas. Essas construções realmente chamam a atenção, principalmente por ter o mesmo conforto de uma casa convencional: instalações elétricas e hidráulicas funcionam normalmente. Nas noites de sábado, o único pub da cidade, que também funciona em um buraco, vira uma boate bem animada, com cerveja gelada e Dj tocando os hits do momento. Aos domingos, as igrejas ficam lotadas de fiéis, que descem a rampa dos dois templos abaixo da superfície: uma igreja Católica Apostólica Romana e outra Ortodoxa. Todos confortavelmente instalados para as missas, sem calor ou frio. 

Antes de voltar ao trem para o último segmento da viagem, uma parada para conhecer a maior construção da Austrália, uma das maiores do mundo: uma cerca que isola os dingos (cachorros selvagens) do norte, das criações de ovelhas, ao sul. A cerca se estende por mais de cinco mil quilômetros, da Austrália do Sul até perto do litoral de Queensland, próximo à Gold Coast e consome 10 milhões de dólares australianos (cerca de R$ 40 milhões) por ano em manutenção.

Nesta parada podemos apreciar a paisagem vermelha do Outback a partir de um mirante. Dali vemos um deserto sem fim, onde um coquetel é oferecido aos passageiros do The Ghan, com direito a brinde com champanhe em pleno deserto. 

O trem parte para mais uma noite correndo os trilhos do deserto a até 120 km/h até chegarmos ao ponto final: Adelaide, a metrópole do sul da Austrália, uma cidade encantadora. Mas vamos deixar para abordar Adelaide aqui na coluna em outra ocasião.